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A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO F*DA-SE

 

ADVERTÊNCIA: esta é uma crônica bem-humorada. E ela contém palavrões. Aviso feito, vamos lá. Há uns 15 anos fazia minhas primeiras palestras já visualizando, porém ainda sem muita certeza, que viveria disso no futuro. Era comum ser chamado para conversar com estudantes do ensino médio sobre mercado de trabalho, postura profissional, atitudes e até mesmo propósito, que na época tinha outros nomes. Numa destes encontros, ao perceber que a numerosa plateia era, digamos assim, meio barra pesada no que diz respeito à atenção, e encontrava-se ali por pura obrigação, completamente desconectada do propósito daquele evento, tive que abrir mão de uma meia dúzia de palavrões para chegar onde precisava chegar com minha abordagem. Pois é: às vezes, quando enfiamos a mão na cartola da empatia, tiramos ‘bichos’ que, apesar de assustarem um pouco, tornam-se absolutamente necessários conforme o contexto. A métrica é fácil de entender e aplicar: onde quer que você vá, identifique o ‘louco’ e trate de ser um pouco mais louco que ele. Regra válida para a vida em cenários onde você precisa catalisar a audiência, como reuniões corporativas, salas de aula, jogos de futebol e, em casos extremos, até mesmo na cadeia, como fez o saudoso cantor Nelson Gonçalves, quando foi preso (procure conhecer essa história: não me recordo se li isso em alguma biografia ou nas antigas entrevistas da revista Playboy).

Na ocasião havia outra palestrante na grade. Responsável por uma empresa de recursos humanos e participante ativa de um grupo que reunia profissionais locais, iria apresentar um assunto mais formal, tipo ‘como fazer seu currículo’, o que fez sem se preocupar muito com o perfil do público ali presente, sua maturidade, seu cansaço depois de um dia de trabalho e todo o déficit andragógico de atenção que, naturalmente, decorreria disso. Entregou o ‘pacote’ e pronto, mais preocupada com o palco do que com o público, lançando muitos ali na ‘bolha’ (veja aqui o que é) logo nos primeiros minutos da palestra. Fim de evento, abraços, beijos, tapinhas na costas e os ‘eu-te-ligos’ habituais, hora de ir pra casa.

Alguns anos depois, em um evento na mesma região, encontro a profissional no estande do tal grupo. Vou cumprimentá-la e, ao ser apresentado às pessoas com quem interagia, tratou de ‘carimbar’ minha testa: ‘ele tem uma palestra meio assim, olha…’ e suspirou fundo, deixando evidentes entrelinhas que avisavam:

“Perigo! Elemento Radioativo! Deixe ele se afastar que te conto em detalhes…”,

tornando claro o porquê de, naquela região, os trabalhos nunca terem avançado muito. O ‘carimbo’ era claro: eu era o cara que falava palavrão na palestra, ‘um horror, afaste-se ou tape os ouvidos’.

Vida que segue e … como o contexto muda, não?

Hoje, nas vitrines das livrarias, abundam títulos como ‘Seja F*#@’, ‘A sutil arte de ligar o F*#@-se’, ‘F*#@-se e seja feliz’, A mágica transformadora do F*#@-se’, replicados a todo instante nas redes sociais.

Nas palestras de conferencistas renomados é um tal de ‘car*#@’ pra um lado, ‘p*#@-que-pariu’ pra outro, ‘vá-tomar-no-@’ e outras tantas pérolas, aplaudidos efusivamente por plateias que, em tese, por terem decidido estar ali, encontram-se em situação bem menos desconfortável que aqueles jovens de quinze anos atrás, onde o único recurso disponível para torná-los mais receptivos naquela noite cansativa – e que me custou caro naquela região – tinha sido dar uma de louco.

Para evitar novas situações do gênero, elaboro com o cliente contratante o tom certo para cada abordagem, o que pode incluir humor, emoção, piadas autodepreciativas (sempre zoando a mim mesmo, é claro) e, até mesmo, um ou outro palavrãozinho que sempre carrego na mala, por que ninguém é de ferro. Recursos que nunca ficam acima do compromisso de entregar muito conteúdo, reflexão e, principalmente, aplicabilidade. Se não for o caso, os palavrões ficam me esperando no carro. É o ‘combinar com os russos’ do Garrincha, que faz com que abordagem seja o máximo assertiva possível, cirúrgica até.

Quanto àqueles antigos profissionais do ‘carimbo’, que em alguns eventos da atualidade salivam a cada novo palavrão, a única coisa que tenho a dizer é:

– Entenderam agora? Oras, vão se f*#@!

 

Eduardo Zugaib é escritor e palestrante – blog@revolucaodopouquinho.com.br/

 

28/03/2018

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